Origem da Modalidade de Laço Campista

A modalidade de competição denominada de Laço Campista surgiu a partir da atividade campeira de lida com o gado criado solto e extensivamente no ambiente de restinga da baixada Campista, no Norte Fluminense, no território do município de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro. O Laço Campista é um modo de laçar único no Brasil, aperfeiçoado na lida do campo e iniciada na região nos séculos XVII e XVIII. As pessoas saíam com seus cachorros, montadas em seus cavalos, à procura dos bois no mato de vegetação de restinga. O ambiente de restinga, bem descrito por Alberto Lamego, é formado por áreas de vegetação em cordões devido aos depósitos arenosos paralelos à linha da costa, de forma geralmente alongada, produzido por processos de sedimentação. A vegetação nesse domínio geográfico se alterna com plantas mais altas nos cordões de areia mais elevados, e gramíneas nativas nas áreas mais baixas intermediárias úmidas (Fotografia 1).

Fotografia 1. Um exemplo do domínio de restinga onde o Laço Campista se desenvolveu. O ambiente de hoje é um pouco mais seco devido a redução de intensidade de alagamentos das baixadas úmidas. Fotografia tirada por Alberto Luiz Alves Crespo em Abril de 2019.

Os bois se escondiam no mato e os cavaleiros saíam de madrugada para pegá-los com o auxílio dos cachorros, que os tiravam do mato para serem laçados pelos campeiros na saída do mesmo, na transição entre os cordões de vegetação mais alta e vegetação rasteira. Quem laçasse e marcasse o boi com sua marca, era dono do chamado “boi do vento”. O trajeto do boi era sair de um cordão de mato para se esconder no outro adiante, atravessando uma baixada úmida de vegetação rasteira. A distância média entre esses cordões de areia de vegetação alta era de 40 metros. Os campeiros da época tinham que laçar os bois no espaço de cerca de 40 metros, caso contrário, o boi entrava no cordão de vegetação alta adiante e era perdido pelo laçador, pois se escondia de novo. Por essa razão, o tipo de laço tinha uma laçada ligeira e era associado a um cavalo de alta explosão, para laçar e acochar no menor espaço possível. O laçador tinha que ser hábil para não ficar muito distante para trás, impedindo o laço de alcançar o boi e, consequentemente, perdê-lo. Com a chegada das cercas, continuaram a usar os cavaleiros que dominavam a arte de laçar para colocar os bezerros no curral. Os bezerros então eram soltos do curral para o campo ao lado do mesmo, onde dois laçadores se posicionavam para laçar. Os dois laçadores eram necessários para garantir que o bezerro fosse laçado fora do curral, no pasto adjacente, caso um falhasse. Assim era feito, pois no campo era mais limpo que dentro do curral, para poder castrar e evitar infecções. Assim, os bezerros eram laçados, marcados e castrados para serem soltos no campo num evento que na época se chamava de “ferra”. Inicialmente, a marca era na orelha – um sinal feito com um corte de parte da orelha – e depois passou a ser usada a técnica do ferro quente sobre o couro do animal, técnica tal que alguns proprietários de gado utilizam até os dias de hoje. Isso foi um aperfeiçoamento da prática do laço. A região era conhecida também pela grande quantidade de engenhos, e o Sr. Dário Soares Fernandes fazia uma festa denominada de “Festa da Cana”. Ao pedir apoio para realizar a “Festa da Cana” a um pecuarista da região, o Sr. Edmundo Siqueira, este falou que dava apoio para fazer a “Festa do Boi”. Com o apoio do Sr. Edmundo Siqueira, o Sr. Dário Soares Fernandes organizou e executou a primeira festa do Laço em 28 de Maio de 1968, no Jokey Clube de Campos dos Goytacazes com enorme sucesso (Fotografia 2). Essa festa reunia famílias e pessoas de várias regiões para competirem com o laço. No início, os competidores não tinham prêmio em dinheiro, eles iam pelo prazer de laçar e dar continuidade à uma tradição passada de pai para filho. Sr. Dário Soares Fernandes foi o grande propagador dessa cultura do Laço Campista, aperfeiçoada pelos campeiros das planícies norte fluminenses. A Associação do Laço Campista vem fazer um resgate histórico destas tradições, relembrando a origem, colocando senso nas regras do esporte e facilitando a aproximação de adeptos do Laço Campista.

Fotografia 2. Desfile das bandeiras, com Hino Nacional, na abertura da primeira Festa de Laço, em 28 de Maio de 1968, no Jockey Club de Campos dos Goytacazes. O Sr. Dário Soares Fernandes era, acima de tudo, um patriota e fazia questão de iniciar todos os eventos com o Hino Nacional. Essa fotografia foi cedida pelo Sr. Dário para João Gomes Siqueira, um dos fundadores da Associação do Laço Campista.

Tentativas de Formar Grupos de Laço Campista

Depois do início dos eventos de Laço Campista em 28 de Março de 1968, Sr. Dário Soares Fernandes trabalhou de forma incansável para promover o laço, e mais tarde, ele teve duas iniciativas mais organizadas na tentativa de juntar laçadores na forma de um clube ou associação. A primeira tentativa delas foi o Clube de Laçadores de Praça de João Pessoa, em São Francisco de Itabapoana, Rio de Janeiro na década de 70. Nessa época o Sr. Dário conseguiu uma área para promover eventos de laço, e ainda hoje, essa área é usada pelo município de São Francisco de Itabapoana como parque de exposições agropecuárias. Esse clube não foi adiante e não se sabe ao certo a razão. No livro sobre o município de São Francisco de Itabapoana, o autor Mário Menezes, relata que na época o clube foi resultado da união dos habitantes do local em favor do crescimento e evolução daquela sociedade e cultura preservando os costumes e as tradições. 

Já no final da década de 80, Sr. Dário tentou criar a Associação de Laçadores do Estado do Rio de Janeiro, Sete Capitães (ALER) com ajuda de outras pessoas. Essa associação foi fundada e registrada em cartório e tinha até um logotipo official usado para correspondências (Fotografia 3).

Fotografia 3. Antigo logotipo official da Associação de Laçadores do Estado do Rio de Janeiro criado para ser usado em correspondências.

Na época, o Laço Campista estava em alta com pessoas organizando eventos inspiradas nos esforços de Sr. Dário, mas sem a dependência dele. Iniciaram na época os prêmios em dinheiro, e por essa razão, houve uma grande difusão de pistas de laço em toda região. Haviam muitos interesses financeiros envolvidos já naquela época. Os laçadores iam para os eventos com o desejo de ganhar o troféu mas as premiações também existiam. Vendo que as tradições campistas estavam ameaçadas, Sr. Dário chamou várias pessoas que eram da região de Lagoa de Cima, em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro para fundarem uma associação com o intuito de promover os eventos de Laço Campista à categoria de modalidade esportiva. O Sr. Dário foi muito habilidoso na escolha das pessoas para os esforços de fundação da ALER. Os membros eram muito engajados na época. Os eventos de laço na área de Lagoa de Cima eram muito atrativos, e Sr. Dário era determinado. Um dos membros participantes na época resolveu ceder uma área do Sítio Boa Sorte para construção de uma pista de laço e uma cancha, esta última, para corridas de cavalos em parelhas. A intenção na época era de fazer uma área para as pessoas se socializarem. O Sr. Dário que era o principal agente, e tinha uma vitalidade grande apesar da idade. Apesar da ajuda valiosa de muitos da região, a formalização da ALER dependia de documentos da área que foi doada. Eles descobriram mais tarde não ter todos documentos adequados. Com a dependência em Sr. Dário com idade já avançada, e dependência de documentos da área, ficou difícil tocar a ALER para frente. A pista de cancha também passou a dar muitas confusões com exageros cometidos com bebidas e apostas. Sr. Dário não conseguiu convencer mais pessoas a lutarem pela causa.  Alguns eventos foram feitos em Lagoa de Cima, mas faltou um pouco de logística para a estruturação e a ALER não foi para frente.

Tudo isso que acabamos de relatar foi uma parte da história do processo de evolução do Laço Campista no Norte Fluminense. Houveram muitas pessoas envolvidas que foram também importantes além de Sr. Dário. Precisamos lembrar que esses esforços precisam de pessoas engajadas e devemos dar valor a essas pessoas. Essa história é importante e precisamos entendê-la para podermos evitar que o Laço Campista perca espaço no futuro.

Eventos do Laço em 2016 e Fundação da Associação do Laço Campista (ALC)

Antes da fundação da Associação do Laço Campista (ALC), em 25 de Agosto de 2016, havia um sentimento geral em vários laçadores de que os eventos não estavam focados no esporte em si. Não havia organização suficiente com o esporte e o Laço Campista estava perdendo sua identidade. Na maioria dos eventos, havia uma preponderância de distrações musicais festivas no mesmo tempo em que as competições aconteciam. Nessa desorganização, o ambiente amigável e familiar, por vezes, era comprometido, afastando laçadores que desejavam mais foco no esporte e no ambiente familiar. Os eventos estavam virando a madrugada sem preocupação nenhuma com os laçadores e o bem estar dos animais. O foco estava em preocupações puramente econômicas. Embora triste, essa conjuntura de desorganização, depois de 48 anos do primeiro evento idealizado pelo Sr. Edmundo Siqueira e tão bem executado pelo Sr. Dário Soares Fernandes, motivou algumas pessoas a criarem a ALC. As idéias chave na cabeça dos associados iniciais eram organizar, proteger e profissionalizar o esporte. Os objetivos principais na mente dos fundadores na época foram traduzidos em vários objetivos específicos no estatuto por João Gomes Siqueira e seu filho Dr. Edmundo Siqueira, e eram os seguintes:

  1. Preservar e disseminar a história da modalidade Laço Campista;
  2. Assistir, promover e valorizar as pessoas ou grupos de pessoas que buscam a perpetuação da cultura regional denominada “Laço Campista”;
  3. Estabelecer a modalidade “Laço Campista” tecnicamente e oficialmente em todo território nacional;
  4. Promover competições esportivas relacionadas ao “Laço Campista”;
  5. Promover eventos ligados à cultura do Norte Fluminense, relacionada à prática do Laço Campista, como: festas, cavalgadas, provas campeiras, provas de laço, projetos culturais, bailes e atividades ligadas a festividades esportivas do Laço Campista;
  6. Promover e disseminar a formalização do Laço Campista junto às entidades de classe e federações ligadas ao esporte;
  7. Apoiar a realização de eventos em qualquer local do território nacional que tenha relação direta com o Laço Campista;
  8. Promover eventos educativos para disseminar a história do Laço Campista;
  9. Promover a proteção dos direitos de imagem, autorais, de marca, de patente e de utilização pública da modalidade “Laço Campista”;
  10. Determinar ordenamentos técnicos para apuração de resultados em competições relacionadas ao “Laço Campista”.

Então, em 25 de Agosto de 2016 foi criada a ALC. Não foi fácil fundar a associação. Um dos desafios principais foi o de motivar as pessoas, e principalmente, mudar a cultura vigente na época que não tinha regras, para uma cultura diferente, mais profissional e implantando regras para organizar os eventos. Havia muito ceticismo e preocupação dos laçadores com um potencial objetivo econômico dos membros fundadores da ALC que foi fundada, importante lembrar, sem fins lucrativos. Hoje a visão do público é um pouco diferente. Os laçadores já se deram conta dos benefícios associados com adoção de regras, e aos poucos, estão confiando mais e estão menos resistentes às mudanças. A Associação do Laço Campista possui um grupo de diretores muito atentos aos anseios do público e dos laçadores, e não toma decisões ou adota medidas sem considerar os impactos ou avaliar bem os riscos. Hoje a ALC conseguiu a ajuda de 9 patrocinadores e tem promovido eventos de forma bem sucedida e com regularidade mensal. Os laçadores voltaram, os treinos aumentaram, o mercado de cavalos se aqueceu com a procura maior e, principalmente, as famílias voltaram para os eventos de Laço Campista.

A ALC está se empenhando para melhorar os eventos de Laço Campista na região. Existem muitos benefícios para aqueles que participam de provas promovidas ou chanceladas pela ALC. As provas são planejadas para não terem um número excessivo de inscrições e a ALC ficou muito boa em calcular o tempo de prova, facilitando o planejamento. Com essa maior organização e valorização das provas, foi observado menos desgaste dos animais, que ficaram mais atentos ao boi, e as linhagens com mais habilidade para trabalho estão se saindo melhor nas provas, valorizando também os cavalos, seus criadores, domadores e treinadores. Recentemente, a introdução da barreira eletrônica introduziu critério e aumentou a competitividade e a responsabilidade do cavalo. Os bons animais têm mais chance de se mostrarem superiores em condições mais justas para serem comparados, tirando também um pouco do peso de decisões nos juízes, reduzindo o erro humano e aumentando a idoneidade das provas. Isso vai aumentar muito o número de criadores interessados em colocar seus animais nas provas, pois os bons animais serão mais valorizados. Os animais também são poupados devido ao número máximo de 2 laçadores por animal, o que é permitido. O bem estar animal é muito respeitado e algo que a ALC considera muito importante. A ALC também oferece um ranking que, no futuro, estará on-line e disponível para todos avaliarem o desempenho histórico dos animais. Para quem reconhece a importância da função no melhoramento animal e possui um sentimento pelas tradições campeiras, fica evidente o bem que a ALC tem proporcionado para todos. A oportunidade de testar os animais no trabalho, em um ambiente justo e de diversão para os participantes, amigos e familiares, é algo que a ALC preza muito.

ALC está se empenhando não somente para melhorar a qualidade das provas e a experiência dos participantes, mas também em aumentar o número de associados, e os benefícios dos sócios. Além de ajudar o esporte a crescer, o que beneficia a todos, atualmente, a ALC lista os seguintes benefícios exclusivos para os sócios:

  1. Descontos em inscrições de provas e treinos
  2. Descontos em produtos e serviços providos por patrocinadores
  3. Cursos exclusivos para sócios

A Associação do Laço Campista depois de 3 Anos em 2019

A ALC cresceu muito nos últimos três anos. Os adeptos do Laço Campista estão se dando conta das vantagens em participar das provas da ALC, em um ambiente familiar, onde a organização e compromisso com regras claras, horários certos, e gado de qualidade, colocaram nosso esporte em outro patamar. De 2016 até Agosto de 2019, foram 29 provas de Laço Campista. A ALC iniciou com uma categoria, a aberta, e foram criadas outras quatro: master, jovem, feminino, e incentivo. Também foram criadas provas direcionadas para sócios. Um sucesso tremendo que em 2019 culminou com um número elevado de associados, mais de 100 e esse número vem crescendo mais. A ALC vem premiando em média 13 mil reais por prova. Apenas na temporada de provas de 2018-2019, foram cerca de 2700 participantes (Figura 1) em seis categorias com um público estimado em mais de 12000 pessoas contando todas as competições. Na última prova na Fundação Rural de Campos (FRC), no início de Agosto de 2019, foram mais de 500 competidores inscritos e 31 mil reais de prêmios em dinheiro.

Figura 1. Número de participantes nas diferentes categorias das provas de Laço Campista na temporada de 2018 – 2019.

Na última temporada de 2018-2019 os eventos foram distribuídos em 11 provas em localidades das regiões norte (Carapebús, Quissamã, São João da Barra, Macaé, e Campos dos Goytacazes) e noroeste do Estado do Rio de Janeiro (Italva e Bom Jesus de Itabapoana). Esses eventos atraíram também competidores de Minas Gerais e Espírito Santo. Em outros anos, a ALC já fez provas em Araruama na região da baixada litorânea do estado do Rio de Janeiro, localizada mais ao sul de Campos dos Goytacazes, o centro de divulgação do Laço Campista. Embora as provas da ALC se concetraram nas regiões acima nessa temporada de 2018-2019, provas no Espírito Santo também existiram em temporadas anteriores.  

A prova mais ao norte do Brasil que a ALC promoveu, organizou e executou foi em Presidente Kennedy, região sul do estado do Espírito Santo. Mas as provas de Laço Campista promovidas por outros organizadores já aconteceram bem mais ao norte do Espírito Santo, com relatos de provas no município de Afonso Cláudio já na região sudoeste serrana do estado do Espírito Santo, cerca de 250 Km ao norte de Campos dos Goytacazes. Apesar da ALC não ter ainda feito provas em Minas Gerais, existem relatos de que a modalidade de Laço Campista já chegou em cidades da zona da mata, em Minas Gerais, como em Fervedouro, cerca de 240 Km de Campos dos Goytacazes o “epicentro” do Laço Campista. Com esses números, podemos afirmar que dentro de um raio de 250 Km de Campos dos Goytacazes, o Laço Campista exerce um grande influência nas comunidades rurais e das periferias de cidades de Minas gerais, Espírito Santo e principalmente no Rio de Janeiro. A ALC está trabalhando para aumentar o quadro de associados e ajudar todos interessados no esporte Laço Campista. Informações sobre nosso esporte podem ser encontradas nesse website.

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